About the work
As Vozes do Chão
Ainda me lembro da primeira noite como quem se recorda de um aviso — não um aviso claro, mas um pressentimento feito de sombras. Era tarde. A eletricidade tinha sumido sem cerimônia, e a casa mergulhava numa escuridão que parecia ter raízes.
Éramos cinco naquele internato antigo. O vento assobiava entre as frestas da madeira como se quisesse nos chamar pelo nome. Neru, o mais velho, fingia calma sentado junto à janela, encarando o breu como se o lado de fora fosse menos perigoso que o que morava entre nós. Eka brincava com um isqueiro velho, acendendo pequenas labaredas como se acender luz fosse suficiente para apagar o medo. Tomi tremia sob um cobertor ralo. Eu apenas ouvia. Havia algo no silêncio que sempre me perturbou mais que qualquer grito.
E havia Avelino. Escoteiro de coração, de pele muito escura e dedos sempre inquietos. Naquela noite, ele desenhava símbolos no chão com o dedo, como se aquilo fosse suficiente para afastar o que estava por vir.
Foi quando ouvimos.
Um som vindo de baixo. Não era passo, não era vento. Era um arranhar calculado — intermitente, como se alguma coisa estivesse tentando soletrar algo sob o assoalho. Não natural. Nem animal. Nem humano.
— É só a madeira — murmurou Avelino, sem convicção.
Mas todos sabíamos. O tipo de som que não precisa de explicação. Só de medo.
Na manhã seguinte, havia marcas sob o tapete da sala — riscos profundos, como se algo com garras houvesse tentado subir. Neru tirou o tapete em silêncio. A madeira estava lá, intacta. E mesmo assim… havia algo errado no ar.
Aquilo era só o começo.
O começo do fim da nossa sanidade.
AI Availability Declaration
This work cannot be made available to AI systems.
Print work information
Work information
Title O internato
As Vozes do Chão
Ainda me lembro da primeira noite como quem se recorda de um aviso — não um aviso claro, mas um pressentimento feito de sombras. Era tarde. A eletricidade tinha sumido sem cerimônia, e a casa mergulhava numa escuridão que parecia ter raízes.
Éramos cinco naquele internato antigo. O vento assobiava entre as frestas da madeira como se quisesse nos chamar pelo nome. Neru, o mais velho, fingia calma sentado junto à janela, encarando o breu como se o lado de fora fosse menos perigoso que o que morava entre nós. Eka brincava com um isqueiro velho, acendendo pequenas labaredas como se acender luz fosse suficiente para apagar o medo. Tomi tremia sob um cobertor ralo. Eu apenas ouvia. Havia algo no silêncio que sempre me perturbou mais que qualquer grito.
E havia Avelino. Escoteiro de coração, de pele muito escura e dedos sempre inquietos. Naquela noite, ele desenhava símbolos no chão com o dedo, como se aquilo fosse suficiente para afastar o que estava por vir.
Foi quando ouvimos.
Um som vindo de baixo. Não era passo, não era vento. Era um arranhar calculado — intermitente, como se alguma coisa estivesse tentando soletrar algo sob o assoalho. Não natural. Nem animal. Nem humano.
— É só a madeira — murmurou Avelino, sem convicção.
Mas todos sabíamos. O tipo de som que não precisa de explicação. Só de medo.
Na manhã seguinte, havia marcas sob o tapete da sala — riscos profundos, como se algo com garras houvesse tentado subir. Neru tirou o tapete em silêncio. A madeira estava lá, intacta. E mesmo assim… havia algo errado no ar.
Aquilo era só o começo.
O começo do fim da nossa sanidade.
Work type Literary: Other
Tags paranormala, filosófico, cultural, família…, africano, terror, poético
-------------------------
Registry info in Safe Creative
Identifier 2509073009807
Entry date Sep 7, 2025, 7:58 PM UTC
License Creative Commons Attribution 4.0
-------------------------
Copyright registered declarations
Author. Holder Meireles Nsangui. Date Sep 7, 2025.
Information available at https://www.safecreative.org/work/2509073009807-o-internato